Não existe um check-up padrão
Pacotes de check-up com dezenas de exames são populares, mas nenhum painel serve para todo mundo. O que faz sentido pedir depende da idade, do sexo, do histórico pessoal e familiar, dos sintomas e dos medicamentos em uso. Um exame só vale a pena quando existe uma pergunta a ser respondida com ele.
Pedir exames demais traz um problema real. Quanto mais itens, maior a chance de aparecer um valor levemente alterado sem importância clínica, e isso gera ansiedade, repetições e, às vezes, procedimentos desnecessários. Nenhum painel garante saúde. O objetivo de um bom check-up é mais modesto: detectar com critério o que é frequente e tratável.
Exames de base que costumam fazer sentido em adultos
- Hemograma: mostra anemia, infecções e alterações das plaquetas. É um exame simples e informativo.
- Glicemia de jejum e hemoglobina glicada: rastreiam o diabetes e a alteração da glicose antes dele.
- Perfil lipídico: colesterol total e frações e triglicérides, para avaliar o risco cardiovascular. A frequência depende da idade e do risco.
- Creatinina e exame de urina: avaliam a função dos rins, que costuma alterar sem dar sintomas.
- TGO e TGP: enzimas do fígado, úteis como triagem, principalmente com medicamentos ou histórico de álcool.
- TSH, conforme a idade e os sintomas: avalia a tireoide em quem tem cansaço, alteração do humor, intolerância ao frio ou histórico familiar de doença da tireoide.
Esses exames respondem a perguntas frequentes e têm um bom custo-benefício. A periodicidade muda de pessoa para pessoa, e cabe ao médico definir quando repetir.
ExamesRecebeu o hemograma? Aprenda a ler o laudo linha a linha.Ler a página sobre hemograma completo: como ler o seu exame, linha a linha →Exames que fazem sentido para quem tem motivo
Outros exames são úteis, mas não para todo mundo. Pedi-los sem indicação é desperdício, e deixar de pedi-los quando há motivo pode atrasar um diagnóstico.
- Ferritina e ferro, em mulheres que menstruam, em quem tem menstruação intensa, em vegetarianos, em quem doa sangue com frequência e em quem sente cansaço ou queda de cabelo.
- Vitamina B12, em quem usa metformina ou antiácidos por muito tempo, em idosos, em vegetarianos estritos e em quem tem sintomas neurológicos ou anemia com células grandes.
- Vitamina D, em quem tem pouca exposição ao sol, osteoporose, uso de certos medicamentos ou doenças que interferem na absorção.
- Exames específicos conforme a queixa, como anticorpos da tireoide, marcadores de inflamação ou investigação de doença celíaca.
O que não deve ser pedido de rotina
- Painéis enormes de exames hormonais, de vitaminas e de minerais, sem sintoma ou motivo que os justifique.
- Marcadores tumorais em pessoas sem sintoma e sem indicação. Eles não servem para rastrear câncer na população geral, e um valor alterado sem causa leva a muitos exames desnecessários.
- Exames de intolerância alimentar baseados em anticorpos IgG. Sociedades de alergia e imunologia não recomendam esse teste, porque a presença de IgG contra alimentos é uma resposta normal e não indica intolerância.
- Testes de genética ou de microbioma vendidos como check-up completo, sem pergunta clínica definida.
- Repetições frequentes de exames que já estavam normais, sem mudança nos sintomas.
O melhor check-up é aquele em que cada exame tem um motivo que consigo explicar a você.
O check-up vai além do sangue
Um bom check-up não se resume ao que é colhido da veia. Medir a pressão arterial, avaliar o sono, revisar vacinas e fazer os rastreamentos recomendados para a sua idade e o seu sexo costuma pesar mais do que um painel a mais de exames laboratoriais. Mamografia, exame preventivo do colo do útero e pesquisa de sangue nas fezes ou colonoscopia são exemplos, e a indicação depende da idade e do histórico de cada pessoa.
Por isso, o ideal é discutir o check-up com um médico que olhe o conjunto, e não apenas escolher um pacote no laboratório.
Como montar o seu check-up
Comece pela conversa, não pela lista. Na consulta, eu pergunto sobre sintomas, rotina, sono, histórico familiar, medicamentos e exames anteriores. Só depois escolho o que pedir. Em muitas pessoas, o resultado é um pedido enxuto, com poucos exames bem escolhidos. Em outras, é um pedido mais amplo, porque há motivo para isso.
- Leve os exames dos últimos anos, para comparar a evolução.
- Conte os sintomas, mesmo os que parecem pequenos.
- Informe todos os medicamentos e suplementos que usa.
- Pergunte por que cada exame está sendo pedido.
- Combine quando e como repetir.
Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta médica. Escrito e revisado por Dra. Marcia Babo, CRM-PR 65624, em 5 de outubro de 2026.

