Policitemia: o que significa hemoglobina ou hematócrito alto
Seu hemograma veio com a hemoglobina ou o hematócrito acima da referência, ou alguém falou em policitemia? Aqui eu explico o que isso quer dizer, quais são as causas e como separar as situações benignas da policitemia vera.

Escrito por Dra. Marcia BaboClínica médica e hematologista · CRM-PR 65624
Revisado em outubro de 2026
Policitemia é o excesso de glóbulos vermelhos no sangue, visto no hemograma como hemoglobina e hematócrito altos. Na maioria das vezes é secundária, ou seja, o corpo está reagindo a algo, como desidratação, cigarro, apneia do sono ou uso de testosterona. A policitemia vera, uma doença da medula óssea, é menos frequente, mas importa porque aumenta o risco de trombose. Distinguir uma da outra define a conduta.
O que significa policitemia no exame
Policitemia, também chamada de eritrocitose, é o aumento da massa de glóbulos vermelhos. O sangue fica mais espesso, e a hemoglobina e o hematócrito, que é a proporção do sangue ocupada por essas células, sobem acima da referência. Em geral considera-se alto a partir de cerca de 16 a 16,5 g/dL de hemoglobina, ou de 48 a 49% de hematócrito, mas a faixa varia por laboratório, sexo e idade.
Há dois grandes grupos. Na policitemia secundária, a medula responde a algo de fora: pouco oxigênio, hormônios, medicamentos ou o próprio sangue concentrado. Na policitemia vera, a medula produz glóbulos vermelhos em excesso por conta própria, por uma alteração genética adquirida ao longo da vida, e não herdada, em geral a mutação JAK2. Ela é uma neoplasia mieloproliferativa, uma doença crônica da medula.
Há ainda a policitemia relativa, em que o número de glóbulos vermelhos é normal, mas o plasma está reduzido, como na desidratação. Ela é muito comum e some quando a pessoa se hidrata. Por isso o primeiro passo é repetir o exame em boas condições.
Hemoglobina
Proteína dos glóbulos vermelhos. Valores altos sugerem policitemia.
Merece atençãoAcima de cerca de 16,5 g/dL em homens e de 16 g/dL em mulheres, de forma persistente. A referência varia por laboratório.
Hematócrito
Proporção do sangue ocupada pelos glóbulos vermelhos. É o valor que mais se relaciona à espessura do sangue.
Merece atençãoAcima de cerca de 49% em homens e de 48% em mulheres. Quanto mais alto, mais espesso o sangue.
Eritropoetina (EPO)
Hormônio produzido pelos rins que estimula a medula a fabricar glóbulos vermelhos.
Merece atençãoBaixa sugere policitemia vera. Normal ou alta aponta mais para causas secundárias. Só a leitura em conjunto com os outros exames conclui.
Causas mais comuns de hemoglobina e hematócrito altos
Listei da mais frequente para a menos frequente. Muitas pessoas têm mais de um fator ao mesmo tempo.
- 01
Desidratação e sangue concentrado
Pouca água, suor excessivo, diarreia, uso de diuréticos e álcool reduzem o plasma e fazem o hematócrito parecer maior, mesmo com a mesma quantidade de glóbulos. Voltar a se hidratar e repetir o exame costuma resolver.
- 02
Tabagismo
O monóxido de carbono do cigarro reduz o oxigênio que o sangue entrega, e a medula responde fabricando mais glóbulos vermelhos. Em fumantes, a hemoglobina costuma ficar alta de forma crônica e melhora depois de parar de fumar.
- 03
Pouco oxigênio: apneia do sono, doenças do pulmão e altitude
A apneia do sono, as doenças pulmonares crônicas, algumas doenças do coração e viver em grande altitude reduzem o oxigênio no sangue, e o corpo compensa com mais glóbulos vermelhos. A apneia é uma causa muito subdiagnosticada, em especial em quem ronca e acorda cansado.
- 04
Testosterona, anabolizantes e alguns medicamentos
A reposição de testosterona e o uso de anabolizantes estimulam a produção de glóbulos vermelhos e são uma causa frequente em homens. Alguns outros medicamentos também elevam a hemoglobina. Não suspenda nada por conta própria, converse com quem prescreveu.
- 05
Policitemia vera
Doença da medula óssea, na maioria das vezes associada à mutação JAK2. Costuma aparecer depois dos 50 anos e pode vir com plaquetas e leucócitos altos, baço aumentado, coceira após o banho quente, queimação nas mãos e nos pés e dor de cabeça. O risco principal é a trombose.
- 06
Tumores e outras causas raras
Alguns tumores e cistos dos rins e do fígado produzem eritropoetina em excesso. Outras causas raras incluem doenças cardíacas congênitas e variantes genéticas da hemoglobina. A investigação serve para não deixá-las passar.
Procure avaliação se a hemoglobina ou o hematócrito altos vierem com algum destes sinais
- Hemoglobina ou hematócrito altos que se repetem mesmo com boa hidratação.
- Plaquetas ou leucócitos também altos no mesmo hemograma.
- Coceira depois do banho quente, vermelhidão no rosto ou queimação nas mãos e nos pés.
- Dor de cabeça frequente, tontura, zumbido ou visão turva.
- Baço aumentado ou sensação de peso do lado esquerdo do abdome.
- Trombose anterior, ou casos de trombose na família.
- Dor súbita na perna, fala arrastada, fraqueza de um lado do corpo ou dor no peito: vá ao pronto-socorro.
Como eu investigo a hemoglobina e o hematócrito altos
Antes de pensar em doença da medula, eu confirmo se o aumento é verdadeiro e persistente. Repito o hemograma com a pessoa bem hidratada e converso sobre cigarro, sono, ronco, medicamentos, hormônios, altitude e uso de anabolizantes. Boa parte dos casos se explica por aí.
Na minha prática em hematologia, quando o aumento persiste sem causa evidente, sigo a lógica da policitemia vera: dosar a eritropoetina e pesquisar a mutação JAK2 no sangue. Com a formação em medicina funcional, olho também o sono, a inflamação e os hábitos. Quando a causa é apneia ou doença do pulmão, trabalho junto com o pneumologista ou o médico do sono.
O que costumo avaliar
- Hemograma repetido, com a pessoa bem hidratada
- Eritropoetina sérica
- Pesquisa da mutação JAK2 no sangue, quando indicada
- Oximetria e avaliação do sono, quando há suspeita de apneia
- Radiografia de tórax e função do pulmão, quando indicadas
- Função dos rins e do fígado, e ultrassom do abdome para ver o baço
- Revisão de testosterona, anabolizantes e outros medicamentos
O tratamento depende da causa. Na policitemia secundária, o foco é tratar a origem, como parar de fumar, tratar a apneia ou ajustar o hormônio com quem o prescreve. Na policitemia vera, o tratamento reduz o risco de trombose e inclui a sangria terapêutica, a retirada controlada de sangue, associada a medicamentos conforme o risco de cada pessoa. Doar sangue não substitui o tratamento nem o acompanhamento quando eles estão indicados.
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O que as pessoas mais perguntam sobre policitemia
Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta médica. Os valores citados são referências gerais: o seu exame deve ser interpretado junto com a sua história e os demais resultados. Revisado por Dra. Marcia Babo, CRM-PR 65624, em outubro de 2026.
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